INSTÂNCIAS DA BUROCRACIA COMO IMAGINAÇÃO
EM MEMORIAL DE AIRES
O presente trabalho não pretende discutir questões relativas aos meandros da burocracia propriamente dita, mas mostrar, através da interpretação de Memorial de Aires, de Machado de Assis, a captação da cultura, da sociedade e mesmo da existência, por um viés burocrático. A reflexão aqui apenas esboçada encontra-se desenvolvida em minha Tese de Doutoramento em Literatura Comparada: Burocracia como Imaginação: Três Momentos da Literatura Brasileira e suas Fronteiras. Entendendo burocracia como imaginação como forma comportamental e de pensamento que se baseia em hierarquias, e no contato dos personagens romanescos com o trabalho burocrático, procuro situar a temática nos debates relativos à cultura, às fronteiras disciplinares, mas sempre tendo a ficção e o comportamento social como ponto de partida. No que diz respeito ao Memorial, a sociedade do final do Império e a do início República brasileira são tomadas como base reflexiva.
Nicolau Sevcenko, em A História da Vida Privada no Brasil, recolheu inúmeros exemplos, extraídos de obras ficcionais das falcatruas e do arrivismo que sustentaram o início da República. Comparando textos do jovem jornalista Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio, com os do experiente cronista Machado de Assis, o autor de Literatura como Missão mostra como os moradores da Capital tiveram que se adaptar no convívio simultâneo entre a resistência da tradição e a instantaneidade das mudanças ocorridas no período na cidade do Rio de Janeiro. Denominada cidade panbrasileira por Gilberto Freire, a então capital do país era o palco onde podiam ser assistidos os eventos mais atrativos advindos das novas técnicas da ciência e por conseqüência, da indústria, como a chegada da eletricidade, dos bondes elétricos, do automóvel e de tantas outras novidades.
O próprio Machado sentia o rumo que as coisas estavam tomando e como o efeito de perder-se na massa, dissolvendo suas limitações individuais e adquirindo uma espécie de dimensão ampliada e poderosa pela associação com o coletivo, se tornava uma tentação a que as pessoas estavam cada vez menos dispostas a resistir. [1]
A massificação chegava, acompanhando a modernização, ao Brasil, país que até então vivera praticamente da agricultura e que era legalmente escravocrata. Demonstrar os pensamentos mais privados em um momento de enormes indefinições não parecia ser, ao experiente diplomata, o caminho mais eficaz para a convivência com seus contemporâneos. Em seu diário, o personagem-narrador demonstra conhecer muito bem as atitudes, o jeito de seus compatriotas, a hierarquia que regia as leis e atividades governamentais e, acima de tudo, as contradições inerentes à sociedade brasileira do final do século.
Em sua experiência de vida, já viúvo, cansado, com uma boa situação financeira e tendo o respeito de todos que o cercavam, o Conselheiro Aires nem se posta ao lado da tradição, nem ao lado da acelerada modernização. Sua posição é semelhante à de um espião, mas é camuflada por uma grande capacidade de filtrar o pensamento que dará vazão ao jogo constitutivo de sua representação. Já, na escrita, muitas vezes, acrescenta piparotes críticos à narração dos acontecimentos.
Embora sem interesses pessoais propriamente ditos, o Conselheiro se apropria do protocolo inerente à representação relativa aos espaços públicos quando em contato direto com seus contemporâneos. Mas, despido de tal protocolo, no isolamento de sua casa, revela o outro lado de suas próprias afirmativas, ou seja, o lado camuflado pelas representações. É próprio daqueles que vivem do intercâmbio entre diversas nações, como é o caso dos diplomatas, saber comportar-se de acordo com as necessidades impostas pelos momentos. No convívio, Aires se utiliza dos conhecimentos adquiridos em seu ofício. Ao pressentir as mudanças acontecidas no Rio de Janeiro (cidade catalizadora das grandes mudanças ocorridas já no final do século, no Brasil, que seriam acelerada no início do seguinte) e sendo possuidor de uma memória privilegiada, o protagonista soube reorientar seu pensamento. Se não adiantava tentar mudar o que ocorria no espaço público, o melhor caminho a tomar, pelo menos enquanto a poeira das aceleradas mudanças ocorridas não baixasse, seria, talvez, utilizar seus conhecimentos (e o diário) para registrar a outra face da vida privada e, principalmente, para tentar se sobrepor pessoalmente às inúmeras contradições humanas.
A burocracia pode ser tomada aqui como charneira que flexibiliza as relações entre o público e o privado, pois serve exatamente como ponte entre as instituições públicas por si mesmas e a vida privada. Ao tramitar nas instâncias da imaginação, a burocracia passa a exercer uma função peculiar: a de injetar nas vias do privado, da intimidade dos personagens, mecanismos inerentes ao domínio público e, principalmente, da própria organização técnica dos büros. Privada, entretanto, a imaginação contaminada pelo crescimento tentacular das redes burocráticas no Estado e na empresa[2], para utilizar uma expressão de José Guilherme Merquior, constitui-se a partir de uma visão estabelecida na esfera pública. Ou seja, os elementos inerentes à esfera pública também podem ser internalizados, reciclados e readaptados, de diferentes formas, pelos personagens romanescos.
Na obra ficcional de Machado de Assis, o Conselheiro Aires é o que melhor consegue trabalhar com as relações entre os domínios público e privado. A burocracia como imaginação, em Aires, emancipa-se, eleva-se ao patamar das resoluções filosóficas íntimas. Exemplo disto se encontra nos desmembramentos das duas faces das palavras do personagem. Uma delas (a pública) serve como elemento de conciliação, a outra (privada), desvela, na intimidade do pensamento do personagem, sua crítica perene às tolices humanas.
O comportamento de Aires, transformando as palavras em moedas de duas faces, que devem ser articuladas de acordo com o momento, revela-se, ainda hoje, no trato social cotidiano. Como afirma Richard Sennett, a vida pública também se tornou questão de obrigação formal.[3] O trato social, as boas maneiras e os intercâmbios rituais são considerados formais e áridos e, mesmo, falsos. A diferença entre o passado romano e o presente moderno, por exemplo, afirma Sennett, se encontra no significado da privacidade. O romano privadamente buscava um outro princípio para contrapor ao público, um princípio baseado na transcendência religiosa do mundo.[4]Mais recentemente, como mostra Sennett, poucas pessoas afirmariam que suas vidas psíquicas surgem por geração espontânea, independentes de condições sociais e de influências ambientais.[5] Conhecer a si mesmo tornou-se uma finalidade, mais do que um meio com o qual se busca conhecer o mundo, segundo o autor. O Conselheiro Aires já utilizava, no Período Imperial, sua visão oblíqua para separar o joio (do público) do trigo (do privado). Por esta característica marcante, Aires pode ser visto a partir de duas imagens: a primeira, ligada à figura do homem cordial, herdeiro de uma formação social caracterizada pela hipertrofia da esfera privada e pelo primado das relações pessoais[6], a segunda, a de um crítico ferino das teias fundadas na própria cordialidade. No convívio, a formalidade fomenta as boas maneiras e intercâmbios rituais, como afirmou Sennett.
Diplomata (burocrata que, através de seu trabalho, passa a conhecer mais do que os outros funcionários públicos os trâmites das leis e dos costumes de seu país), Marcondes Aires possui um pensamento que se organiza a partir de uma espécie de burocracia de atitudes. As contradições que o próprio personagem, como brasileiro que viveu no final do século XIX , incorpora, fazem com que esse comportamento burocrático que o caracteriza se choque com as instantâneas mudanças com as quais é obrigado a conviver. Acostumado a viver de acordo com os acontecimentos, menos discordando ou concordando, do que seguindo orientações de seus superiores hierárquicos e, principalmente, buscando saída para os impasses, Marcondes Aires assume seu comportamento burocrático, mas o filtra, readaptando-o, sempre que necessário, à sua peçonha crítica.
A esperteza do Conselheiro Aires o coloca bem próximo de um outro personagem fundamental na obra machadiana: Brás Cubas. Ambos possuem uma enorme capacidade analítica e a utilizam como veículo de uma ironia mordaz. Brás Cubas revela, dentre outras inúmeras críticas, instâncias privadas de seu relacionamento amoroso. O personagem inclusive descreve com certa minúcia o local onde praticava o adultério, que é proibido pelas leis, mas de prática muito comum (como se poderá confirmar nas peripécias astuciosas da ninfa de Numa Pompílio, personagem de Lima Barreto).
Como já se podia perceber em Esaú e Jacó, quando Aires era apenas um personagem, de acordo com o que declara o narrador em terceira pessoa, M. A. trazia o calo do ofício, o sorriso aprovador, a fala branda e cautelosa, o ar da ocasião, a expressão adequada.[7] O perfil do personagem revela um homem requintado, respeitado não apenas por seu cargo, como também por sua aparência.
Gostava assaz de mulheres e ainda mais se eram bonitas. A questão é que nem as queria à força, nem curava de as persuadir. (...) Não era general para escala à vista, nem para assédios demorados; contentava-se com simples passeios militares, - longos ou breves, conforme o tempo fosse claro ou turvo. Em suma, extremamente cordato. [8]
A atitude velada do diplomata se diferencia daquela esperada por um general, como se vê nas metáforas de cunho militar usadas acima, enquanto o segundo prima pela ostensividade das atitudes, pela demonstração da força, da presença, o primeiro se constitui a partir da sutileza, da oclusão de sua intimidade. Entretanto, preocupa-se em destacar o narrador do romance, Aires é homem comum, gosta do que é considerado bom pela sociedade. Sua maior marca está na maneira cordata (cordial) de agir.
Os calos do ofício, como se pode depreender dos comentários acima, vão além das aparências, se instalam no íntimo do futuro personagem-narrador de Memorial de Aires. A burocracia invade os instantes mais íntimos do personagem, ajuda-o a moldar suas atitudes. Seu comportamento burocrático aí se mostra com clareza. Mesmo o casamento do diplomata fora realizado de acordo com as conveniências. A escolha da mulher que seria sua esposa segue um padrão de necessidade. A palavra paixão não faz parte do vocabulário íntimo de Aires.
Casou-se por necessidade de ofício; cuidou que era melhor ser diplomata casado que solteiro, e pediu a primeira moça que lhe pareceu adequada ao seu destino. Enganou-se: a diferença de temperamento e de espírito era tal que ele, ainda vivendo com a mulher era como se vivesse só. Não se afligiu com a perda; tinha o feitio do solteirão.[9]
O Conselheiro usa da ironia para conviver consigo mesmo (a partir do pensamento oblíquo grafado em seu diário) e com a sociedade cada vez mais metamorfósica (modernizante). Já Brás Cubas, usa um artifício que beira as grandes jogadas dos malandros cariocas – ainda embrionários à época –, e que uma expressão popular da atualidade bem sintetiza como fingir-se de morto para viver. Aires, por sua vez, faz sua denúncia ao escolher exatamente o ambiente aristocrático para narrar. Obviamente, o próprio personagem ali está inserido, e o que o leitor percebe são, menos que peripécias, comentários agudos de situações (aparentemente) prosaicas. Dos vários exemplos relativos à aparente fugacidade da narrativa, pode-se lembrar agora de dois: o primeiro se revela na importância dada pelo personagem-narrador ao crescente esquecimento por parte da personagem Fidélia em relação ao marido morto. Isto já se mostra nas primeiras páginas do romance Memorial de Aires, quando a narração enfoca o apego inicial da viúva à imagem do marido. Em princípio, a personagem parecia estar determinada a prender-se eternamente à memória do marido morto. O segundo exemplo se prende à forma como o casal Aguiar, que se dedicara tanto a Fidélia quanto a Tristão, é deixado de lado, quando o interesse do rapaz de continuar a carreira, voltando para Portugal, o faz deixar os dois idosos que os tratara como pais dedicados. Pior do que isto, além de partir, o rapaz leva consigo a sobrinha também estimada como filha. O que Aires questiona como traição dos personagens, na realidade, é simplesmente a escolha do casal Fidélia e Tristão de viver fora do país, ou de seguir os ideais de riqueza, de beleza e conforto pessoais, próprios das sociedade ocidental. Pois é exatamente aí que o demônio da crítica revela, por traz das molduras dos protocolos sociais, a essência individualista das relações humanas.
Em seu diário, resguardado do espaço público, o personagem M. A. avalia não apenas a sociedade, mas a própria existência humana. Esse tipo de análise, inerente a toda a obra ficcional machadiana da maturidade, faz com que mesmo os seus críticos mais bem intencionados neutralizem a importância do Memorial exatamente por ser o personagem um viúvo que possui as mesmas iniciais do autor e que, principalmente, como este, analisa de forma sagaz a sociedade e o mundo em que vive. Ao invés de ler a trajetória do romance seguindo a sombra de seu autor, a partir das coincidências entre criador e personagem, torna-se muito mais importante e enriquecedor perceber a profundidade que se oculta no aparente marasmo contido nas narrações desse quinto e fundamental romance da chamada fase madura do romance machadiano.
José da Costa Marcondes Aires é o último dos narradores machadianos. É ele também o detentor de um título que se encaixa bem em seu ofício de diplomata: conciliador. Personagem e narrador do Memorial, Aires já figurara em Esaú e Jacó. Nesse romance, ouve mais do que fala e concilia o quanto pode.[10] Seu principal instrumento de trabalho é a articulação do jogo estratégico de convívio que constrói a partir de seu pensamento oblíquo.
Como afirma Alfredo Bosi, o personagem possui a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes.[11] Memorial de Aires, romance publicado em julho de 1908, traz um narrador-personagem, sexagenário, diplomata e aposentado. Estas condições, segundo Alfredo Bosi, são fundamentais para um bom afastamento do personagem em relação ao convívio com seus contemporâneos, o que possibilita uma melhor condição para utilizar a enorme capacidade analítica necessária às funções do diplomata. Mas tal condição não deve ser entendida como possibilitadora de um distanciamento efetivo, pois tais condições são ideais para quem se quer afastado da praia, mas ‘com os olhos na gente que fica’. [12]
Retornando às figurações do pensamento burocrático em Memorial de Aires, observa-se, através do diplomata, que Machado de Assis, ainda de acordo com Alfredo Bosi, consolidará a capacidade já instaurada em Memórias Póstumas de Brás Cubas, de dispensar-se de intervir no duro jogo da sociedade, devido às três condições fundamentais. Sendo Aires um aposentado, diplomata e sexagenário, pode relacionar-se sem envolver-se efetivamente com o mundo que o rodeia ou, pelo menos, escolher quando quer se envolver. Com Brás Cubas ocorreria fato semelhante, pois trata-se de um personagem que, por sua condição de morto, já está, a priori afastado da sociedade. Mas há um dado que não se pode esquecer. Se a influência de Aires poderia parecer pequena, pois o personagem joga com as circunstâncias e é um conciliador em potencial, o fato de estar compondo um memorial que deverá ser lido pelos seus pósteros, reorienta a primeira impressão. Ou seja, o texto do diplomata Marcondes Aires se transformará em um testamento crítico e, a partir daí, tomará outro rumo.
Ficção, a confissão declarada no diário passa a ser lida a partir de uma desconfiança, de um distanciamento maior.[13] O que deveria ser tomado como verdade inquestionável, por tratar-se do testemunho de vida do personagem, pode receber uma leitura oblíqua, tão oblíqua como costuma ser a narrativa machadiana. Torna-se importante entender aqui que a utilização da primeira pessoa do discurso por Marcondes Aires já faz parte, por si mesma, de uma estratégia ficcional que funciona como desvio sorrateiro da própria expectativa de sinceridade.[14]
Machado de Assis joga com as peças advindas de um grande conhecimento das formas burocráticas de comportamento. Também ele foi um burocrata acostumado com os trâmites do cotidiano de sua época.
Aires e Brás Cubas são dois excelentes jogadores. Conhecem o solo onde pisam, ao contrário de Rubião que implode em sua incapacidade de ler as supostas atitudes amigas do casal Palha. Já Bento Santiago, em sua costumeira e confusa leitura das atitudes de seus contemporâneos por um viés que mescla desconfiança e insegurança, não tem forças para driblar as artimanhas sociais e descobrir um caminho pessoal para refletir sobre o mundo circundante. Drástico, utiliza seus conhecimentos do júri para vencer as batalhas interpretativas que impõe a si mesmo. Cria um comportamento burocrático e, por extensão, um pensamento jurídico sobre a vida. Aposentado, como que distanciado da vida ativa, o diplomata Aires, diferente de D. Casmurro, usa o que aprendeu com a burocracia para se afastar de problemas. A malandragem do Conselheiro parte das mesmas premissas do calo do ofício (como o narrador de Esaú de Jacó denominou os elementos constitutivos do trabalho com a diplomacia). As palavras, entretanto, mesmo contento material corrosivo e inflamável, recebem um tratamento que as camufla e tranqüilizam o inimigo, enquanto o atingem em cheio.
A utilização da primeira pessoa pelos dois protagonistas machadianos (Aires e D. Casmurro) permite tal afirmativa. Mas a primeira pessoa, em si mesma, já traz impregnada a possibilidade da intervenção da opinião desse eu que, entretanto, geralmente incorpora os aspectos da sinceridade e poder da verdade daquilo que emite.Esse jogo da primeira pessoa machadiana, que envolve a criação de um diário ou de um memorial, quando se relaciona com o pensamento burocrático passa para o patamar da organização, da hierarquização das atitudes como denúncia. Brás Cubas prefere denunciar e ridicularizar diretamente, enquanto o diplomata Marcondes opta pela sutileza de uma linguagem, que sob a aparência da conciliação, desvela os meandros das relações humanas nas sociedades ocidentais.
Nas atitudes do experiente personagem Marcondes Aires, já não se encontram os arroubos do vigoroso defunto-autor Brás Cubas, tampouco a casmurrice do velho Bento Santiago, personagem que mais internaliza a tradição burocrática na obra machadiana. Torna-se importante frisar que, se Bentinho deve ser dissociado de D. Casmurro (pelas diferenças estabelecidas na própria obra, assim como podemos depreender do estudo de Silviano Santiago sobre O Ateneu, onde dissocia o menino Sérgio, aluno do internato, do Sérgio narrador, adulto[15]), não se deve esquecer que as marcas do menino Bento se fixam no corpo do adulto Doutor Santiago, assim como a semente da incapacidade de se desprender do pensamento burocrático já se encontrava em Bentinho antes mesmo de tornar-se um bacharel. A cristalização de tal pensamento se dá na velhice, quando conta em seu diário que intentava unir as duas pontas da vida. Assim, o narrador tenta juntar a esperança do inseguro menino Bentinho ao ceticismo do desconfiado doutor Bento Santiago.
A argúcia de Brás Cubas e a introspecção de D. Casmurro estão presentes no velho diplomata Aires. Entretanto, mais sutil que Brás Cubas (não menos sagaz) e menos detentor da consciência judaico-cristã de culpa do doutor Bento, o Conselheiro Marcondes Aires, que já passara dos sessenta anos, é menos um derrotado pelas instâncias da velhice e da aposentadoria que um hábil e perene especialista nas relações exteriores. Expert nos assuntos relativos à representação social, Aires embora não minta, não dissimule (o que poderia torná-lo uma das figuras criticadas por Brás Cubas), trabalha sempre com o que convém a cada ocasião. Isto se dá porque Aires é um especialista no trato do comportamento burocrático da sociedade e, ao invés de se deixar influenciar por ele, o utiliza a seu favor.
[1] Nicolau SEVCENKO. A capital irradiante: técnica, ritmos e ritos do Rio. In. Novais, Fernando A. (org.). História da vida privada no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras, 1998. p. 580.
[2] Ver: José Guilherme MERQUIOR. 2. ed. De Anchieta a Euclides. Breve História da Literatura Brasileira. Rio de Janeiro, José Olympio, 1979. p. 151.
[3] Richard SENNETT. O declínio do homem público, as tiranias da intimidade. Trad. Lygia de Araujo Watanabe. São Paulo: Companhia da Letras, 1988. p. 15
[4] Id., ibid. p. 16
[5] Id.
[6] João Cezar de Castro ROCHA. Literatura e Cordialidade. O público e o privado na cultura brasileira. Rio de Janeiro: UERJ, 1998. p. 25.
[7] Machado ASSIS. Esaú e Jacó. Op. cit. p. 964.
[8] Id. ibid. pp. 964 e 965.
[9] Id. ibid. p. 965.
[10] Alfredo BOSI. Céu, inferno. Ensaios de crítica literária e ideológica. São Paulo, Ática, 1988. p. 59.
[11] Id. ibid.
[12] id. ibid. p. 58
[13] Ocorre aqui o oposto da expectativa de que o personagem conte efetivamente o que se encontra em seu íntimo. Graciliano Ramos, na leitura de Antônio Cândido possui obras que têm na confissão efetivamente seu ponto temático de partida. Ver, portanto: Antônio CÂNDIDO. Ficção e Confissão. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. p. 13.
[14] Em relação às estratégias da primeira pessoa, ver: Wolfgang ISER. Writing Strategies. In: Sterne: Tristram Shandy. Trad. para o Inglês: David Wilson. Cambridge: Cambridge University Press, 1988.
[15] Ver: Silviano SANTIAGO. Uma Literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978. p. 73.